Garrafa PET vira filamento: o circular feito no Brasil
· 6 min de leitura · 1 visualizações · por Equipe 3D Tocantins
Atualizado
Um aluno do primeiro ano do ensino médio, em Jandaia do Sul (PR), montou uma máquina que engole garrafa PET e devolve fio de impressora 3D. Não é maquete de feira parada numa foto: já saiu peça impressa do material reciclado. E, em paralelo, você já consegue comprar filamento de garrafa PET reciclada fabricado no Brasil, pronto pra usar.
Filamento é o custo que não para na impressão 3D. Quase todo filamento nacional nasce de pellet importado em dólar, então garrafa PET, abundante e quase de graça, soa como a matéria-prima perfeita pro tal circular. A promessa é boa. A pergunta honesta é quanto disso já virou realidade e quanto ainda é protótipo.
O que o projeto com a UFPR realmente construiu
O projeto se chama Pet Recycler do NanoMakers, tocado por João Pedro Arruda, do primeiro ano do Colégio Estadual Cívico Militar de Jandaia do Sul, em parceria com o Campus Avançado da UFPR. A ideia partiu de uma pergunta do próprio aluno: "vendo a quantidade de garrafas pet sendo recicladas eu me perguntei se não era possível reciclar de uma maneira mais direta".
A parceria começou quando o professor de empreendedorismo Sinderlei Pimenta conheceu o Laboratório Maker da UFPR, com impressoras 3D, corte a laser e eletrônica. A máquina recebe o plástico em forma de filete, aquece até o ponto em que ele amolece e puxa o material virando filamento.
O status real importa. Segundo a UFPR, já imprimiram pequenos protótipos, e os próximos passos são produzir bobinas maiores, testar em impressoras diferentes e automatizar a produção. Em bom português: é prova de conceito que funciona, não linha de produção. Tratar isso como "filamento de graça resolvido" seria vender o que ainda não foi entregue.
Como uma garrafa vira fio de 1,75 mm
O método que virou referência no mundo maker é o Polyformer, máquina open-source criada por Reiten Cheng. O princípio é mecânico e elegante: uma lâmina apoiada em rolamentos corta a garrafa numa fita longa e contínua, e essa fita passa por um hotend de impressora reaproveitado que termoforma a tira num fio de 1,75 mm.
A máquina é feita em boa parte de peças impressas em 3D mais componentes comuns de impressora, com arquivos abertos no GitHub e no Cults3D. Já são cerca de 300 unidades rodando em mais de 50 países. Uma garrafa rende poucos metros de fio, então uma bobina de 1 kg consome na ordem de algumas dezenas de garrafas, dependendo do tamanho. O apelo é óbvio: a matéria-prima está no seu próprio lixo.
Por que PET reciclado é mais difícil de imprimir do que de vender
Aqui mora o problema que os vídeos bonitos não mostram. O PET puro é um polímero semicristalino: ao esfriar, ele tende a cristalizar, o que atrapalha a velocidade de extrusão e dificulta resfriar o fio na saída da máquina. Por isso PET puro é chato de processar.
O primo fácil é o PETG, um PET modificado com glicol que fica amorfo e por isso imprime liso, sendo o que a maioria usa hoje. Filamento de garrafa reciclada não é PETG: é PET, com toda a teimosia dele.
Tem ainda a consistência de diâmetro. Um estudo sobre PET como filamento mostra que a espessura da tira precisa mudar conforme a garrafa (cerca de 9 mm para Coca-Cola, 8 mm para Guaraná Antártica) pra fechar um diâmetro certo; medida errada gera filamento defeituoso e oco. A literatura recente também relata adesão fraca entre camadas, encolhimento e delaminação. E PET absorve umidade, então fio mal guardado vira bolha e estalo na impressão.
ePET: o reciclado que já dá pra comprar pronto
Quem não quer montar máquina tem um atalho nacional. O filamento ePET da 3N3, vendido por revendedores como Dynalabs e Blue Makers, é feito de garrafa PET reciclada e vem em bobina de 1 kg, 1,75 mm.
O pulo do gato foi de engenharia, não de marketing: baixar a temperatura recomendada pra caber na maioria das impressoras do país. O fabricante indica bico por volta de 250 °C (faixa de 245 a 255) e mesa em torno de 70 °C, com bico de 0,4 mm, camada de 0,16 a 0,2 mm e velocidade de 50 mm/s. Na prática, ele se comporta perto de um PETG: resistência térmica e mecânica boa, warping baixo, solta fácil da mesa, sem odor e reciclável de novo depois.
Quanto custa, e onde o "barato" é mito
Hora da conta honesta. A bobina de ePET 3N3 sai por volta de R$ 99,90 o quilo (a Dynalabs anuncia esse valor, de um cheio de R$ 109,90). O detalhe que desmonta o discurso fácil: isso é praticamente o mesmo preço do PLA virgem da própria marca, e não sai mais barato que um PETG nacional comum.
Reciclado, na ponta, não é sinônimo de mais barato. Coletar, limpar, triturar, secar e extrudar PET com diâmetro estável custa, e esse trabalho está embutido no preço. O ganho real do ePET é ambiental e de origem: matéria-prima local, economia circular e uma peça 100% reciclável de novo, não desconto na etiqueta.
Onde comprar: revendedores 3N3 como Dynalabs, Blue Makers e Loja3D. Pra quem imprime longe dos grandes centros, comprar filamento nacional corta frete e a espera da importação, e esse é o ganho regional concreto, mais do que o preço. Já a rota faça-você-mesmo do Polyformer zera o custo da matéria-prima, mas você paga em tempo de montagem, curva de aprendizado e qualidade irregular. Ótimo como projeto educacional e ambiental. Ainda imaturo pra produção séria.
Perguntas frequentes
Dá pra fazer filamento de garrafa PET em casa?
Dá, com uma máquina como o Polyformer, open-source e montável com peças impressas. Funciona pra prototipagem e uso educacional, mas exige montagem, ajuste e paciência, e a qualidade fica abaixo do filamento comprado.
Filamento de PET reciclado é a mesma coisa que PETG?
Não. PETG é um PET modificado com glicol, amorfo e fácil de imprimir. Filamento de garrafa é PET puro, semicristalino, mais propenso a cristalizar e empenar. Comerciais como o ePET ajustam a formulação pra chegar perto do comportamento do PETG.
O ePET imprime em qualquer impressora 3D?
Na maioria das FDM com bico que chega a 250 °C e mesa aquecida, sim. Foi justamente esse o objetivo do produto: baixar a temperatura pra ser compatível com máquinas de entrada comuns no Brasil.
Quantas garrafas viram 1 kg de filamento?
Depende do tamanho da garrafa. Como cada uma rende poucos metros de fita, uma bobina de 1 kg consome na ordem de algumas dezenas de garrafas. Não espere transformar duas garrafinhas em um rolo cheio.
Peça de PET reciclado é resistente?
O PET tem boa resistência mecânica e térmica, e o ePET é indicado para peças funcionais. O ponto fraco recorrente do reciclado é a adesão entre camadas e a umidade, que pioram se o fio não for seco.
Precisa secar o filamento?
Sim. PET e PETG absorvem umidade do ar. Fio úmido estala, solta bolha e perde resistência. Guardar em caixa seca com sílica e secar antes de imprimir resolve a maior parte.
Onde ir agora
Se você já imprime, o jeito mais rápido de testar o circular não é montar uma máquina: é rodar uma peça funcional (um suporte, um gancho, um organizador) numa bobina de ePET nacional e ver como ela se comporta na sua impressora. Quer comparar com outros materiais antes de decidir? Dá uma olhada nos outros guias de material no nosso blog. Reciclar de verdade é usar a peça, não só admirar a ideia.
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